OBESIDADE
VOCÊ SE SENTE ACIMA DO PESO?
(Artigo do Dr Eduardo Flores para o Clube da Dona Menô)
Há cerca de trinta anos, quando comecei a me dedicar à Endocrinologia, os pacientes obesos eram evitados até mesmo por nós, a quem cabia lhes fornecer as orientações necessárias à correção de uma doença tão comum e tão grave.
Lembro-me de que no hospital que eu frequentava nos anos 70, o ambulatório de obesidade era feito aos sábados à tarde, o que piorava ainda mais a relação do médico com este grave problema de saúde pública. Os residentes e o orientador escalados para o ambulatório sentiam-se castigados.
Na verdade o preconceito gerado pelo desconhecimento, pela falta de soluções a oferecer para a reversão do quadro, também grassava entre nós.
Por outro lado, já naquela época, havia poucas patologias tão rentáveis para muitos, tais como: laboratórios fabricantes de medicamentos, farmácias de manipulação, nutricionistas e profissionais médicos (endocrinologistas, ortopedistas, médicos ortomoleculares, fisiatras, psiquiatras, cirurgiões, acumpunturistas), nutrólogos, academias de educação física - sérios ou não tão sérios, como a obesidade.
Era um verdadeiro filão para oportunistas. Sem falar nas cintas, espartilhos, cremes, supositórios, injeções, equipamentos eletrônicos, massagens, spas, etc.
No mundo atual, onde a beleza e a magreza se confundem, ser “gordinho” ou ser portador de uma obesidade mórbida é se sentir marginalizado. Dizer que alguém engordou é ofendê-lo no que há de mais inviolável.
Poderíamos já aqui estabelecer uma regra de etiqueta: nunca fale sobre o peso de alguém, a não ser para dizer que ele esta menor. Do contrário, não toquemos no tema, pois vamos declarar guerra ou, no mínimo, causar ressentimento naquela pessoa que nos ouve.
O gordo carrega dentro de si um “sofrimento intrínseco”, com um peso maior para sua vida de convivência do que aquele mostrado pela balança.
Todas as vezes que o portador de qualquer grau de sobrepeso ou obesidade se encontra com alguém, um dos primeiros assuntos abordados faz referência ao seu peso.
O gordo nunca está elegante, tudo é difícil, nada lhe cai bem! As pessoas estão sempre de olho no que ele está comendo ou como come. Os amigos o usam como “escada” de humor durante as reuniões sociais. Estão sempre com a vestimenta desajeitada porque, para se sentirem ou parecerem mais magros, compram roupas em números menores ou bem maiores, na tentativa de transmitir a sensação de que emagreceram.
Com o passar do tempo, ele muda sua personalidade e, com freqüência, diz que “não come nada”, o que muitas vezes representa a realidade, pois pode comer muito menos que seus pares considerados magros ou, de outra forma, comer escondido para não ser recriminado.
O gordo sofre! É muito mais difícil ao obeso obter emprego onde novamente o seu peso espelha a sensação de um caráter fraco, além de outros, como uma saúde mais frágil e, consequentemente, um profissional com maior risco de absenteísmo.
O seguro saúde dos obesos, face ao risco de doenças associadas, tais como diabetes mellitus, hipertensão arterial, doenças articulares e da coluna, infarto do miocárdio, doenças vasculares (acidentes vasculares cerebrais, erisipelas, varizes de membros inferiores), infecções respiratórias, apnéia do sono, sonolência pós-refeições (elevando o risco de acidentes de trânsito), são muito mais onerosos.
Nas festas, como sofre o gordo! Todos os olhares o vigiam!
Aí, vem o pior de tudo! O gordo se sente o único culpado por ser gordo, advindo outras graves doenças, como alterações de comportamento (semelhante às que acontecem com os dependentes químicos), a bulimia, a depressão, a compulsão e o isolamento social.
Hoje a evolução do conhecimento médico nos mostra que ser gordo não se constitui em falta de caráter. A obesidade é uma doença crônica e deve ser encarada com seriedade e respeito por todos os envolvidos com ela, quer sejam pacientes, familiares ou médicos.
Ninguém é gordo porque quer.

Todos os dias aparecem dietas novas, uma “simpatia”, uma acupuntura inovadora, um novo medicamento, um novo chá milagroso, uma nova atitude, um médico com alguma fórmula revolucionária que promete resolver definitivamente o problema do excesso de peso e o obeso vai a todos na busca incessante por uma solução mágica, no entanto, em termos de saúde pública, esta é hoje uma das maiores e piores epidemias que assolam a humanidade.
A obesidade está envolvida na maioria dos pacientes diabéticos, coronariopatas, hipertensos, nos graves problemas articulares, ortopédicos, em um grande número de cânceres e problemas psico-emocionais – doenças, geralmente, incapacitantes.
O gordo tem baixa estima: Sente-se pouco amado e tenta, de uma forma compensatória, ser “simpático” ou “engraçado”, como atitude afirmativa de aceitação dentro de seu grupo social.
Qualquer gordo faria “qualquer coisa para emagrecer”, para deixar de comer, para não sofrer mais. De preferência, coisas que não mudem muito a sua rotina, as suas preferências alimentares, o seu padrão de atividade física e, desta forma, em busca de algo próximo aos seus anseios, se expõe ao charlatanismo, na tentativa de uma solução que o emagreça a custa de pouco esforço. Ele abre espaços para as famosas “fórmulas milagrosas”, para as “dietas da moda”, “chás”, “simpatias” - o que pode lhe custar a vida, dependência química ou quadros depressivos graves, às vezes, irreversíveis.
As bancas de jornais estão repletas de revistas do tipo “emagreça sem sofrimento”; as livrarias estão repletas de soluções milagrosas; as farmácias lucram com seus infalíveis chás, poções, fórmulas, soluções “definitivas”.
Nos meios de comunicação, sejam quais forem, não há um dia sequer sem um artigo ou reportagem sobre o tema. Nas ruas carros estampam: “Emagreça! Perguntem-nos como!”.
Eles deveriam complementar: “ Com desonestidade poderemos responder...”.
E as dietas? Existem em profusão! Em sua maioria sem o menor fundamento científico! É a dieta do grupo sanguíneo, do abacaxi, da sopa, das frutas, das gorduras – infinitas e muitas delas expondo o paciente a riscos ainda maiores à sua saúde.
Bem, então o que se propõe?
Proponho dizer o que é factível hoje! Amanhã será outro dia e, certamente, novidades estarão por vir. Com soluções, talvez!
Os milagres ainda não aconteceram e sinto dizer que a possibilidade de eles se realizarem é mínima. Não há a fórmula milagrosa e, acredito, jamais haverá.
Obesidade ainda não é uma doença completamente entendida em seu todo. O excesso de peso se constitui na expressão de um grande número de disfunções, sejam elas genéticas, sociais, circunstanciais, endócrinas, metabólicas, neuroquímicas, comportamentais, psíquicas e outras que ainda não sabemos.
Não existe um remédio para que a obesidade desapareça por completo. Estamos ainda um pouco distante disto.
Vamos definir o que seja obesidade:
Considera-se obeso os homens que têm gordura corporal acima de 20% e mulheres que possuem gordura corporal acima de 30%.
Essa aferição não é fácil de ser avaliada e os melhores métodos para tal são a tomografia computadorizada do abdome ou a ressonância magnética e a bioimpedânciometria (método que, através de uma passagem de corrente elétrica pelo corpo, é capaz de aferir com uma boa precisão o seu percentual de gordura).
Os graus de obesidade foram balizados em uma tabela elaborada pela “METROIPOLITAN LIFE INSURANCE COMPANY” - uma companhia de seguros que estabeleceu preços para os seguros de vida segundo os riscos de doenças para diversas faixas de peso.
De forma prática, a obesidade é avaliada dividindo-se o peso pela altura elevada ao quadrado: [peso ¸ (altura X altura)]. Esta equação define o chamado índice de massa corporal (IMC), em que indivíduos com índices entre 25 e 30 Kg/m² são considerados como portadores de sobrepeso e os acima de 30Kg/m² como obesos. Quanto maior o IMC, maiores são as chances de que doenças surjam no decorrer da vida. Os índices de massa corpórea associados a menor morbidade (aparecimento de doenças relacionadas ao peso) se situam na faixa entre 22 e 27 Kg/m².
Um outro fator importante a ser considerado é a distribuição corporal da gordura. Existem duas formas de obesidade: a chamada central ou abdominal e a periférica, com uma gordura homogeneamente distribuída ou com predomínio da gordura no quadril.
A obesidade abdominal lembra a forma de uma “maçã” e é a mais grave, ligada ao aparecimento de diversas doenças, dentre elas, o aumento do risco de doenças cardíacas como o infarto do miocárdio.
A obesidade do tipo periférica é conhecida com em formato de “pêra”, a forma menos grave. A gordura subcutânea da obesidade, dita em forma de pêra, produz substâncias (adiponectina), que são protetoras para a instalação da doença aterosclerótica, ao contrário da obesidade na forma de “maçã”, que promove o aparecimento de diversas doenças como a síndrome metabólica, a resistência à insulina, a elevações de colesterol e triglicérides - onde todas colaboram para o aumento do risco cardíaco, além de infiltração de gordura no fígado, podendo levar à cirrose hepática, ao diabetes mellitus, ao câncer colo-retal, ao aparecimento de cálculos biliares, às tromboses venosas, às artropatias degenerativas, dentre outras.
A obesidade em pêra é o padrão feminino e a alegria dos salões de beleza, das academias, das massagistas, das drenagens linfáticas, das cintas, dos cremes, dos cirurgiões plásticos, das lipoaspirações, etc.
As mulheres odeiam mais os chamados “pneusinhos” e a celulite que a obesidade!
Segundo muitos estudiosos, obesidade pode ter causas diversas:
Origem genética, familiar, particularmente aqueles que são obesos desde a infância e que representam cerca de 30% dos casos.
Obesidade que surge na puberdade, prevalente em meninas, que é atribuída a alterações emocionais e a exposição aos hormônios sexuais. Mesmo nestes casos há, geralmente, uma história familiar, onde a mãe ou a avó também ganharam peso ao surgir a puberdade.
Obesidade após o casamento, excluindo-se, aí, a gravidez, que aparece preponderante nos homens, é atribuída ao sedentarismo e a uma maior quantidade e regularidade na ingesta alimentar.
Obesidade após as gestações (forma extremamente comum) tem como causas as alterações psíquicas, hormonais e genéticas.
Obesidade por cessação das atividades físicas (que ocorrem com ex-atletas, quando param de praticar esporte, mas continuam mantendo a mesma ingesta alimentar rica) e pode se constituir em uma das formas mais graves da doença.
Obesidade que surge naqueles que abandonaram o hábito de fumar, com sua causa ligada a uma queda no metabolismo (gasto energético) associada a um maior interesse pelos alimentos por conta da melhora na percepção de seu sabor.
O interessante nestes pacientes é o fato de que voltar a fumar não os fará emagrecer.
Obesidade causada por drogas. Algumas medicações indubitavelmente promovem ganho de peso, como o uso de cortisona, algumas pílulas anticoncepcionais, alguns medicamentos antidepressivos - particularmente os da família dos tricíclicos (TOFRANIL, ANAFRANIL, PAMELOR, TRYPTANOL), os antipsicóticos e o lítio. Estes medicamentos podem induzir a compulsão por comer.
Obesidade que surge na menopausa, época em que as mulheres têm marcadas alterações em seu corpo e em seu humor.
Obesidade ligada a outras causas, tais como após a retirada do útero, ovários e laqueadura das trompas, podem estar relacionadas a alterações psíquicas e/ou hormonais.
Os obesos frequentemente são investigados quanto à existência de disfunções hormonais, particularmente tireoideanas, embora menos do que 5% das obesidades tenham uma clara disfunção hormonal em qualquer das glândulas endócrinas.
Uma outra importante causa de obesidade está ligada a disfunções psíquicas: separações, morte de entes queridos, vida em ambiente hostil, etc, apesar de muitas pessoas viverem estes mesmos problemas sem um ganho de peso considerável. Muito se diz em relação ao ganho ponderal por ansiedade, depressão ou por carência afetiva.
Por que algumas pessoas comem muito nestas situações, enquanto outras deixam de comer e emagrecem? Ainda não conhecemos uma resposta definitiva.
O que faz uma pessoa engordar?
A resposta é:
Comer mais em calorias do que se é capaz de gastar. Neste item todos nós conhecemos pessoas que não comem demasiadamente, quando comparadas as magras, entretanto, são gordas ou muito gordas.
O que acontece?
Na verdade, acreditamos que estas pessoas possuam um gasto calórico muito baixo. Uma grande parte das calorias que comem é armazenada sob a forma de tecido adiposo, com consequente ganho de peso.
Aqui já podemos definir dois tipos de gordos: os que comem muito e os que gastam pouco.
Ainda podemos citar um outro tipo de gordo: aquele que come relativamente pouco, mas tem preferência por alimentos gordurosos, com um elevadíssimo índice calórico.
1 g de carboidrato possui 4 calorias, 1g de gordura possui 9 calorias e 1g de álcool possui 8 calorias. Quando falamos de alimento, quanto mais doces eles forem mais enjoativos se tornam; quanto mais cremosos, amanteigados, mais saborosos se mostram.
Existem ainda alguns trabalhos científicos que evidenciam uma tendência de os gordos (que, inclusive, se movimentam menos que as pessoas magras) gerarem um gasto calórico menor.
Ser obeso é estar em um estado que gera, de alguma forma, discriminação, segregação, menos valia.
A partir disso, dissertamos sobre as obesidades, vislumbrando este grave distúrbio sob diversos ângulos e baseando-se em opiniões de grandes estudiosos, como o Professor Alfredo Halpern da Universidade de São Paulo.
Para finalizar, gostaria de enfatizar que esta doença chamada obesidade merece ser abordada de uma forma séria e multidisciplinar, principalmente neste momento em que tantos tratamentos “milagrosos” são divulgados na mídia de boca em boca ou apregoados por pessoas desqualificadas e inescrupulosas, com um risco ainda mais grave para a saúde daqueles que buscam o apregoado milagre do “emagreça sem sacrifícios”.
O obeso deve ter em mente que ele não precisa ser magro para ser saudável (porque esta pode ser uma meta inatingível), mas poderá ser menos gordo, com grande benefício para sua saúde global.
A fórmula verdadeiramente milagrosa reside na vontade de conquistar este novo patamar na qualidade de vida e isto só se consegue com mudanças em nossos hábitos, em nossa forma de pensar e agir e em uma nova visão de futuro mais saudável.
Procure seu médico e converse com ele sobre o que você leu aqui. Busque resposta para suas dúvidas. Descubra qual seu tipo de obesidade e entenda porque ela acontece. O seu tratamento estará ligado ao seu diagnóstico e à sua determinação. Quando você se conhecer melhor tudo será mais fácil.
Viva um pouco mais leve. Viva mais e melhor!
Dr Eduardo Flores
Endocrinologia
CRM 52-27724-8
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